Uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz
apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais
fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até
ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si
própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu
também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas
eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer
é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos
contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de
garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria
dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é
preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em
mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse
apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha
qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma
roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas
coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento
essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as
portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado
para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a
mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você
precisava de muito espaço....
[...]
Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender.
[...]
Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender.
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